segunda-feira, janeiro 07, 2008

The Cova Gala´s dream


No caminho de 50 minutos até Portomar, para mais uma cantata dou boleia a 4 senhoras da Igreja da Cova. No banco de trás discute-se política americana e já todas decidiram que irão à Embaixada votar no Obama para presidente.

Comunidade fustigada pela fome nos anos 60/70, da Cova Gala emigraram para a pesca nos Estados Unidos muitas famílias. Agora muitos anos depois na Cova Gala muitas pessoas têm dupla nacionalidade e fidelidade.

A América é a terra de todas a possibilidades. "Antes o mal da América do que o bem de Portugal", comenta-se. Na America ganharam as dólares, criaram-se os filhos, tem-se subsídios, assistência médica, muda-se de emprego quando se pode ganhar mais, conseguiram orientar a vida. "Aqui a fominha era muita, pastora! Não se conseguia criar os filhos! Mas lá na América, lá é um país de Deus."
ss
Sofreram muito ao princípio, saíram daqui com carta de chamada, mas sem saber dizer uma palavra em inglês - na verdade alguns nem sabiam ler ou escrever. Muitos dos portugueses que lá viviam tinham vergonha de o ser e fingiam que não falavam português, então era difícil fazerem-se compreender. "Agora já há tudo em português: há supermercados, restaurantes, hoje nem é precisos falar inglês para viver na América! Ahahahah - dizem divertidas - Os portugueses agora, já não têm vergonha de falar português." Na América sentiram pela primeira vez que trabalhar não era vergonha, e que embora fizessem os últimos trabalhos da escala social, não deixavam de ser pessoas - "Lá os supervisors têm coração e tratam-nos como gente, aqui éramos muito mal tratadas nas fábricas e pelas patroas! E outra acrescenta: "Ai mulher! Nem me quero lembrar da miséria que aqui passei antes de ir para a América!!!" Recordam as horas nos barcos até à terra prometida e as histórias ainda piores dos que saíam a salto para França, "A Maria da ti Esperança até grávida teve de ir a pé para a travessar a fronteira, coitada!"

Amam o país que as acolheu, odeiam a emigração que as fez viver longe da família que cá ficou e as faz viver agora longe dos filhos e dos netos, pois os homens quiseram voltar. "Os homens querem sempre voltar!" - concordam conformadas. Mas elas... elas vivem com o coração do outro lado do Atlântico, chamando para os filhos sempre que podem, sentindo saudades dos bosses que lá eram melhores, indo às graduations dos netos, tateando a internet para falarem com os seus. E resentindo-se dos homens que as arrastaram de volta para a terra onde nasceram, mas que não as cuidou.

2 Comments:

Blogger PRS said...

bom texto ...

07 janeiro, 2008 17:18  
Blogger David Cameira said...

Este post é simplesmente BRILHANTE !!!

Especialmente a parte " antes o mal da Ame´rica do que o bem de Portugal "

HÓ GLÓRIA HALELUIAH

Qt aos votos ...o Obama é preto enquanto que a Hillary é mulher.

Enquanto baptista hesito por não saber nitidamente qual o melhor ( ou menos mau, lol..
Dsc a pastora a alfinetada )

26 janeiro, 2008 17:07  

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